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sábado

Michael Jackson era humano


Somente a morte parece ter redimido Michael Jackson da pecha de ser algo inumano. A genialidade do artista, de voz perfeita e corpo maleável, cuja habilidade coreográfica ninguém jamais conseguiu imitar sem parecer ridículo, ajudaram bastante a criar e instigar o mito de que era feito de outra matéria. Sempre cercado por uma espessa e misteriosa neblina, de onde emergiam diversas faces curiosas sob os relâmpagos dos flashes fotográficos, a vida de Michael Jackson foi, paradoxalmente, um enigma devassado à exaustão. O mundo inteiro sabe quase tudo sobre Michael, desde o início de sua carreira precoce e retumbante, e, ao mesmo tempo, não sabe quase nada. E essa absurda aura provavelmente continuará brilhando e cegando também após sua morte.

A saga de Jackson é um excelente espelho da humanidade. Enquanto vivo, cada gesto seu provocou críticas viscerais, umas elogiosas e muitas destrutivas. A morte abrupta, no entanto, provocou uma unanimidade rodrigueana, que não cansa de atestar o caráter incomum de seu legado para a música e a dança. Enquanto em vida era coroado Rei do Pop, com um certo tom de menosprezo, de arte menor, desencarnado, passou a ser formidável, absoluto, monumental. Se cada elogio proferido durante vinte e quatro horas após seu falecimento lhe tivesse rendido um dólar enquanto vivo, Michael Jackson talvez tivesse quitado todas as suas dívidas, recuperado Neverland e acumulado uma razoável fortuna.

Estranha humanidade a nossa, que homenageia mais a morte do que a vida.

segunda-feira

A pujante voz da África



Infelizmente, o continente africano é mais lembrado como fonte de desgraça do que de exuberância. É comum falar da África como se fosse um bloco homogêneo de tristezas, um amontoado de problemas, quando na verdade é um continente tão diverso quanto as civilizações que povoam a América, da Patagônia ao Canadá.

Além de AIDS, pobreza e guerras civis, a África possui uma rica herança cultural, não apenas no Egito ou no Marrocos, mas também em Gâmbia e no Senegal, onde a memória histórica foi transmitida pelo canto dos Griots através de várias gerações.

Os Griots eram (e ainda são) poetas cantadores, autênticas escolas ambulantes, ensinando lições de vida, narrando lendas e façanhas. Sua musicalidade inspirou o Blues, o Rap e também o Mbalax, gênero baseado em ritmos e sonoridades tradicionais daquela região da África Ocidental, que incorporou variadas influências, do jazz aos arranjos afro-cubanos e cantos religiosos islâmicos.

O resultado desta alquimia, um som visceral absolutamente contagiante, alcança dimensões celestiais na voz de Youssou N’Dour. Com uma potência capaz de provocar a comoção mais profunda, as miraculosas cordas vocais do maior ídolo do Senegal, formam um instrumento de timbre e extensão impressionantes, que parece afinado por algum diapasão divino.

Com essa voz pujante, cantando em wolof, francês e inglês, quase sempre acompanhado por uma banda repleta de músicos incrívelmente talentosos, a formidável Super Etoile de Dakar, Youssou se distingue também como compositor extraordinário, autor de um amplo e magnífico repertório e principal representante do Mbalax (“UMM BAH-LAAKH”), que ajudou a criar e desenvolver.

Não bastasse compor e cantar como poucos, Youssou N’Dour tem ainda um notável engajamento político, dedicando-se a inúmeros projetos sociais, não apenas em relação às penúrias africanas, mas em prol da anistia internacional, dos direitos humanos e outras causas essenciais. Enfim, Youssou é um dos seres humanos mais completos do planeta, um Griot imprescindível da África e quase uma divindade no Senegal.